Bioeconomia na Amazônia e a contribuição da Embrapa no bioma entram na pauta de debates da FGV


A pesquisa, os recursos da biodiversidade amazônica e as estratégicas de parceria, principalmente com o setor privado para que a região, o Brasil e o mundo sejam beneficiados pelas soluções resultantes da ciência são a base do desenvolvimento econômico, social e ambiental a partir do potencial do bioma. A defesa do presidente da Embrapa Celso Moretti, durante a quarta rodada dos Diálogos Amazônicos, no evento virtual promovido pela Fundação Getúlio Vargas, reforçou a importância da programação de projetos da Empresa, com foco na bioeconomia. Moretti enumerou alguns dos principais resultados da pesquisa até agora e os impactos desse esforço sobre o desafio de conciliar sustentabilidade e desenvolvimento econômico e social, a partir das demandas do setor produtivo.


“Temos nove centros de pesquisa na Amazônia Legal e 89 laboratórios”, disse ele, lembrando que, depois das Forças Armadas, a Embrapa talvez seja uma das instituições mais presentes na Amazônia brasileira, em função da capilaridade regional. No desenvolvimento de projetos, conta com a parceria de 43 outras instituições públicas e privadas , 47 projetos de pesquisa com aporte aproximado de R$ 32,5 milhões. “Além disso, mais 26 unidades fazem parte do portfólio dedicado à Amazônia, na busca por soluções e ativos em bioeconomia”, completou. “Trabalhamos voltados aos problemas reais da agricultura, da pecuária e do setor florestal brasileiro”.


Entre os exemplos da contribuição da pesquisa, Moretti citou a cadeia produtiva da mandioca que, hoje, graças à tecnologia, favorece produtores da Amazônia que chegam a produzir mais de 24 toneladas de mandioca por hectare, a partir de variedades desenvolvidas com melhoramento genético. Sobre o incremento da piscicultura, o presidente disse que a produção de tambaqui em sistema intensivo de aeração, também desenvolvido pela tecnologia, tem potencial de passar de 6 para até 22 toneladas por hectare. “Essa produção ocorre em tanque escavado com aeração, em que é possível reduzir o ciclo de criação de 36 para 10 meses”, comentou. O projeto tem o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e também foi citado por ele como um dos mais importantes resultados da pesquisa em benefício da Amazônia.

No desenvolvimento de pastagens, o presidente lembrou as pesquisas com adaptação de espécies forrageiras para as características regionais amazônicas. “Nossos estudos apontam que 84 por cento do bioma continuam preservados, 10 por cento de áreas consolidadas para a pecuária e 3 por cento de áreas para a agricultura”, afirmou. “Nas áreas de pecuária do Pará, por exemplo, desenvolvemos tecnologia que contribui com a sustentabilidade, sem que haja necessidade de abertura de novas áreas”, ressaltou, referindo-se à importância de mostrar para o Brasil e para o mundo que é possível manter a floresta em pé, sem comprometer o desenvolvimento regional.


Ainda sobre os resultados da pesquisa da Embrapa para a Amazônia, Celso Moretti falou sobre o programa de melhoramento genético do guaranazeiro, que estuda substâncias presentes no guaraná, benéficas à saúde, utilizadas pela indústria farmacêutica e de alimentos. Lembrou as espécies do bioma usadas para a obtenção de óleos essenciais para o controle de pragas e doenças da agricultura. “O dilapiol, extraído da pimenta de macaco, é um inseticida botânico que se mostrou eficaz no controle da lagarta do cartucho do milho, que é uma doença grave que atinge as plantações em vários países do mundo”, disse. “Onze embaixadores do Sul da África já procuraram a Embrapa preocupados com o problema”.


“Desenvolvemos também o inoculante microbiológico produzido em parceria com a Basf, a partir da bactéria diazotrófica Nitrospirillum amazonense, que atua no crescimento e desenvolvimento da cana-de-açúcar, contribuindo com o aumento da produtividade nas lavouras”, comentou. O Nitrospirillum amazonense é uma espécie de bactéria fixadora de nitrogênio e promotora de crescimento que foi primeiramente isolada de plantas da Amazônia brasileira e que ajudou a aumentar em 18% a produtividade da cana de açúcar.


Busca da ciência nos rios amazônicos


Entre os exemplos, o presidente da Embrapa também destacou o pioneirismo da expedição de pesquisadores que percorreu mais de seis mil quilômetros em rios amazônicos, com o objetivo de coletar sedimentos, a partir dos quais foram identificados microorganismos que produzem enzimas que podem ser usadas na indústria têxtil, química, alimentícia e papeleira. “Foi um trabalho de meses viajando para encontrar ativos que revelaram as possibilidades que podem ser desenvolvidas a partir da bioeconomia”, destacou.


“Por fim, sobre o açaí, desenvolvemos uma tecnologia que permite pasteurizar a fruta, sem alterar o sabor e a conservação de compostos nutritivos”, citou Moretti, referindo-se ao fato de a solução ter sido buscada em função de problemas de contaminação de polpa de açaí com o agente patogênico da doença de chagas.


Para que haja condições de a pesquisa se desenvolver ainda mais e cumprir o seu papel de agente na busca por soluções aos desafios regionais, o presidente da Embrapa defendeu o envolvimento do setor privado, como já vem sendo feito com sucesso em algumas experiências. “Já colocamos no mercado, o bioinsumo que vai ajudar a resolver a dependência brasileira de fósforo e da mesma maneira temos em andamento o desenvolvimento de alimentos à base de proteína vegetal, feitos de fibra de caju”, citou.

“Em 2021, esse é um dos nossos maiores desafios – trazer o setor privado para trabalhar com a Embrapa”, garantiu, ressaltando o potencial do País para a criação de um modelo de formação de startups voltadas à bioeconomia. “No exemplo da expedição dos rios amazônicos, não é a Embrapa que vai colocar o resultado dessa pesquisa no mercado – precisamos da parceria do setor privado”, defendeu. “Temos que ter um modelo, por meio dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs), para consolidar essa sociedade, como já vem ocorrendo nos Estados Unidos”.


Segundo Moretti, o modelo de pesquisa e desenvolvimento deve ser pautado na identificação do problema, na proposição do projeto e no encaminhamento das soluções. “Isso é estratégia”, disse. “Não somos uma instituição que tem soluções atrás de problemas – vamos atrás dos problemas para buscar as soluções”, concluiu. Como exemplo, citou a transformação agropecuária ocorrida no Cerrado, a partir da tecnologia tropical para o desenvolvimento do bioma, que hoje é responsável por mais da metade da produção de grãos, carne e cana de açúcar no País.


“No caso da Amazônia, estamos falando de um bioma onde devemos explorar a biodiversidade, a manutenção da floresta em pé e a proteção dos recursos naturais”, comentou. “A partir da riqueza desses recursos, será possível fornecer elementos, substâncias e compostos químicos para uma série de ativos, que poderão solucionar problemas da agricultura e da indústria”.


Potencial a ser explorado


Para o presidente da Embrapa, em se tratando do bioma Amazônico, a bioeconomia está em estágio inicial, na fase da domesticação e do conhecimento relacionado à biodiversidade. “Por meio da pesquisa, buscamos identificar e ajudar a resolver problemas do dia a dia do cidadão, com geração de riqueza e renda tanto para dentro quanto para fora do Brasil”, afirmou, garantindo ser esta a prioridade com a qual a ciência estará focada nos próximos anos.


Questionado sobre a capacidade de competitividade econômica do bioma, sem criar pressão sobre a floresta, e o futuro da atividade extrativista, Celso Moretti citou o exemplo da cadeia produtiva da castanha do Brasil, conhecida no mundo inteiro. “Não enxergo no futuro a existência de pomares ou fazendas de castanheiras”, disse. “Trata-se de uma atividade extrativista, mas que é possível se organizar do ponto de vista de produtores e cooperativas, de forma a criar condições de capacitar para o manejo e o tratamento do produto, com qualidade e sem riscos de contaminação”, completou. “O associativismo é uma forma de vencer barreiras”.


O presidente destacou ainda a os avanços nas pesquisas relacionadas à piscicultura, em especial o tambaqui, que faz parte da programação de pesquisas genéticas, para eliminação da espinha em Y, que vai facilitar o processamento para a indústria. “É uma oportunidade para pequenos e médios produtores, a partir de um conjunto enorme de possibilidades de desenvolvimento da pesquisa na área de biotecnologia”, disse.

Ao finalizar, Celso Moretti destacou o lançamento, em novembro do ano passado, do plano estratégico – VII Plano Diretor da Embrapa – para 2030, no qual foram definidas pela primeira vez metas quantificáveis, para o cumprimento no período. “Uma delas é aumentar em 10 milhões de hectares a área com adoção dos sistemas florestais, até 2025”, citou. “Não são boas intenções apenas, são metas palpáveis e tangíveis”.


Disse também que a Embrapa vem discutindo com vários parceiros, entre os quais o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), estratégias para o desenvolvimento da bioeconomia. “A Embrapa faz pesquisa com propósito e buscamos desenvolver soluções que possam agregar valor e ajudar os diferentes setores da economia”, comentou.

Para discutir os temas relacionados ao desenvolvimento da Amazônia, participou com o presidente da Embrapa, Celso Moretti, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas, Jório de Albuquerque Veiga Filho. A moderação ficou a cargo do coordenador do programa de pós-graduação em Finanças e Economia, professor da FGV EESP, Márcio Holland, e o diretor de Pesquisa da FGV Agro, Daniel Vargas.